Pensar sobre o mundo que nos cerca é uma tarefa complexa. Em um tempo caracterizado pela velocidade das informações, é sempre mais cômodo enxergar as coisas parcialmente. Elegemos com facilidade ídolos de barro. O político incorruptível. O empresário genial. A celebridade glamourosa, cuja vida idealizamos.
Do outro lado, enfiamos tudo o que não presta. Políticos desonestos, artistas mal-intencionados, empresários corruptos. Recusamos os fatos que abalam as nossas crenças e buscamos apenas narrativas que confirmem as nossas escolhas. Um mundo raso, ralo, superficial. Uma realidade em preto e branco.
Às vezes é preciso coragem para enxergar as coisas por outro prisma. Vejam o caso da Eagle. O Brussel foi rebaixado na Bélgica. O Lyon ia pelo mesmo caminho, até ser resgatado no apagar das luzes pela Ares. Até o Crystal Palace sofreu com uma despromoção para a Liga Conferência.
A torcida desses clubes tem John Textor como persona non grata, por diversas razões. Seria uma unanimidade, se não existisse o Botafogo.
A discrepância já chama a atenção. Para entender melhor os fatos, analisemos por um momento a trajetória recente do nosso clube. Com um ano de SAF, um time pouco mais do que razoável e um técnico desconhecido, batemos o recorde de pontos no Brasileiro. Se não levamos o título de 2023, foi em parte por uma série de decisões erradas da Diretoria.
O ano virou. Um investimento maior em 2024 fez o Alvinegro conquistar os títulos mais importantes do continente, em uma campanha memorável, igualando a marca que pertencia apenas ao Flamengo, na era dos pontos corridos.
Habilidade pura e simples do dono da SAF? As evidentes trapalhadas na gestão de outros clubes, que provocaram uma intervenção na Eagle, sugerem o contrário. Em certa medida, não foi John Textor que fez o Botafogo; foi o Botafogo que fez John Textor e toda a holding.
Sou eu quem faço esta afirmação? Pois observem quantos empresários famosos do mundo do esporte também perceberam o óbvio. Segundo notícias recentes, gente como Andrea Radrizzani, dono da Sampdoria e fundador da Eleven Sports, a família Agnelli, proprietária da Ferrari e da Juventus, Gerry Cardinale, controlador do Milan e do Toulouse e o bilionário brasileiro Juca Abdalla estariam interessados na compra da SAF do Botafogo. Pelos belos olhos do Textor? Claro que não.
Ah! Dirão os que ficaram perdidos em 2020; Textor tirou o nosso time da lama. Sem ele, estaríamos na série C, talvez fechando as portas.
É uma forma unilateral de ver as coisas. Que tal dizer que ele fez um investimento, pegou dinheiro emprestado, deu o nosso clube em garantia, não pagou a dívida, usou nossas receitas para financiar o Lyon e agora precisa de recursos imediatos para tapar o rombo que ele mesmo criou?
São palavras de ingratidão? E o que dizer de um empresário que rifou ativos de um negócio com o intuito de financiar a operação de terceiros?
Sim, muitas vezes a verdade tem leves tons de cinza. John Textor errou e acertou. Não é um demônio em forma de gente, como certos veículos de mídia tentam fazer acreditar. Tampouco é um anjo de asas douradas que desceu do céu para salvar o Botafogo.
Sua parceria com Evangelos Marinakis pode até prosperar. Seria uma maneira de levantar recursos para uma recompra. Contudo, se o Botafogo permanecer nessa ciranda financeira, quem nos garante que não acabaremos sustentando novamente empreitadas mais do que duvidosas, dessa vez na Segunda Divisão inglesa?
Cedo ou tarde, de prejuízo em prejuízo, a casa cai. E aí, sim, fecharemos as portas definitivamente.
Ao Associativo, cabe defender os interesses do clube, não deste ou daquele investidor. Já é mais do que tempo de ouvir os proponentes, pesar as variáveis e costurar um acordo. Se Textor quiser permanecer, tem que apresentar garantias de que não vai empenhar o nosso clube em apostas arriscadas.
Um time de futebol não é um entreposto ou uma mercearia; é um repositório de experiências, memórias e vivências. Deve ser respeitado e protegido por aqueles que receberam dos sócios a tarefa de salvaguardar a instituição.
Porque, queiram ou não admitir, é o Botafogo, amigos, e não John Textor, que tem estrela.
Rodrigo Rosa é um ativo da Nova Escrita http://www.novaescrita.art.br









