Tempos difíceis para o Botafogo. Hora de ligar para o Maneco, meu consultor para assuntos alvinegros, torcedor do tempo em que bonde era meio de transporte, e não passeio turístico.
Pensei que ia encontrá-lo deprimido com o noticiário do clube. Mais uma vez, me enganei. Maneco atendeu lépido e fagueiro, em seu quartel-general, que não é Severiano, mas fica bem perto: um bar na Mena Barreto, onde ele tem cadeira cativa.
– Fala, Digo. – ele exclamou, todo lampeiro, em uma mesa na calçada, sob um toldo de pano verde-musgo.
Não pude esconder a surpresa.
– Está tudo bem? – eu arrisquei.
– E por que não haveria de estar?
– É que pensei que…com as últimas notícias… – eu balbuciei.
Maneco fez um ar de enfado.
– Digo…Jura? Então você acha que eu sou marinheiro de primeira viagem?
Não, eu conhecia muito bem a experiência futebolística do meu amigo.
– Meu caro, eu já dei comida na boca do Biriba. Vi Nilton Santos fazer embaixadinha com uma pataca…
– Com o quê? – eu estranhei.
– Uma moeda da nossa época. Olha, Digo, tem torcedor que pensa que o Botafogo começou em 2024. Nós não ganhamos Libertadores antes porque a competição não valia grande coisa. Muitos clubes brasileiros desistiam de participar.
Maneco tomou um gole de sua bebida e prosseguiu em seu memorial.
– Só para você ver. Ganhamos a Taça do Brasil em 68. A CBD vetou a participação dos times brasileiros na Libertadores em 69 e 70. Então decidimos disputar o Torneio de Caracas, que era uma espécie de Mundial paralelo à Intercontinental. Fomos campeões três vezes, contra Barcelona, Peñarol e até a Seleção da Argentina. E se a Fifa não quer reconhecer, para mim tanto faz.
Assenti com a cabeça, como um aluno que aprova a erudição de seu mestre.
– Isso é só para dar um exemplo. – ele continuou – Claro que os títulos de 2024 foram importantes. Mas a História do Botafogo vai muito além. E não vamos ficar reféns de dirigente nenhum.
Ainda ousei indagar, mais pelo gosto da provocação.
– Quer dizer que esse imbróglio todo na SAF não te incomoda?
Maneco deu um suspiro.
– Claro que incomoda, meu rapaz. Só que eu não perco o meu sono com isso. Parei até de seguir as notícias da net. Quando tiver jogo no Niltão, eu compareço. De resto, sei que o Botafogo vai dar a volta por cima.
Fui obrigado a confessar que não tinha tanta certeza. E o Maneco, ajeitando os óculos no nariz, fez uma pausa para dizer:
– Digo, os tempos mudaram. As pessoas hoje são fãs de políticos e de milionários. Meu partido, sabe qual é?
Antes que eu respondesse, ele se adiantou:
– Meu partido é a minha família, Digo. E eu sou fá do Botafogo. Mais nada.
Cumpre admitir que era uma filosofia de vida um tanto desusada, mas eficaz. Ainda assim, insisti que a situação do clube beirava a tragédia.
Os olhos do meu amigo se perderam subitamente na distância. E ele respondeu com uma voz hesitante:
– Tive um professor de Física no Liceu…Que costumava repetir uma frase interessante…Nunca me esqueci do seu comentário…Ainda mais agora, nessas circunstâncias.
Ele fez uma pausa, antes de acrescentar:
– Ele dizia: “As estrelas nunca morrem. Elas se transformam em outras estrelas. É o ciclo do Universo há bilhões de anos. Um processo contínuo, eterno, imutável.”
– Então… – eu comecei, emocionado.
Maneco abriu um largo sorriso.
– Então que o Botafogo vai sobreviver, meu amigo. E, para desespero dos que torcem por dirigentes, e não pelo clube, o time da Estrela Solitária ainda vai nos dar muitas alegrias.
Rodrigo Rosa é botafoguense e acredita na Nova Escrita. http://www.novaescrita.art.br









