Já dizia o provérbio: tudo na vida tem uma primeira vez.
O primeiro volteio pelo salão de baile com a menina que hesitamos tanto em convidar para a dança.
O primeiro dia em uma nova escola. Sem conhecer ninguém. A angústia na fila, os rostos sisudos dos inspetores, os corredores amplos, sobriamente decorados, a austeridade das grandes salas de aula, os colegas que ainda não passam de um bando de estranhos.
São tantos começos. Tantos anseios, tantas expectativas. O primeiro dia de trote na faculdade. O nascimento do primeiro filho.
A primeira vez no Maracanã. O primeiro clássico.
Bandeiras desfraldadas, camisas coloridas, o tumulto nas roletas, o medo de se perder do pai, o coração apertado, as mãos trêmulas.
A surpresa com a festa das torcidas, fogos, faixas, mosaicos, coros e cânticos.
Um friozinho na barriga, quando soa o apito inicial.
Já passamos por quase tudo. Grandes alegrias, profundas tristezas. Perdas e renovações. Derrotas inesperadas e surpreendentes vitórias. Experimentamos o gosto amargo da decepção e o doce contentamento do triunfo. Fomos reis por um dia e miseráveis por quase toda uma vida.
Passamos por tudo, eu diria. Mas não por uma final da Libertadores.
Botafoguenses de todas as gerações têm agora a sua primeira vez.
A semana corre lentamente. Vivemos um tempo que parece nunca chegar. A ansiedade cresce, nossa atenção se descola do presente, a imaginação alça um voo, alcança alturas impensadas.
Porque teimamos em antecipá-la, a conquista nos parece por vezes quase impossível.
Às vezes, em nossa impaciência, é como se a felicidade nunca fosse chegar.
Há dois dias, vencemos o nosso principal adversário no Brasileiro de forma incontestável, soberana, em pleno Allianz Parque: um passeio, um verdadeiro espetáculo.
As cenas ainda estão gravadas na memória. Passam como flashes pela lembrança. A jogada ensaiada, mas nem tanto, do primeiro gol. A transição rápida, em três toques, do segundo. O voo redentor de Adryelson no terceiro.
Depois todas as imagens caem no vazio.
Foram mesmo dois dias? Esse jogo parece tão distante…
Nossas atenções estiveram sempre voltadas para o futuro.
Sábado o Glorioso enfrenta o Atlético Mineiro em Buenos Aires. Releio a frase, repito em voz alta essas palavras, como se, à força de repeti-las, de reescrevê-las, elas ganhassem mais do que a dimensão de um sonho que parece irrealizável.
A angústia permanece. Não há o que fazer. Levanto-me da cadeira, passeio pelo quarto. Volto ao computador.
Sábado faremos a final da Libertadores. É um fato consumado. Os dardos estão lançados, as apostas estão feitas. O destino, de alguma forma, pode ter sido escrito, irremediavelmente. Pouco importa.
O conselho de um botafoguense das antigas: aproveitem. Desfrutem dessa oportunidade. Abracem sem temor o destino. Vivam o instante, com toda a intensidade, com todo o desprendimento, como se ele fosse verdadeiramente único.
Porque todos os grandes momentos são únicos, não importa quantas vezes você volteie pelo salão de baile com uma garota em seus braços, quantos colégios você frequente, quantos filhos você tenha.
Nem quantas Libertadores o seu clube dispute.
O resultado é uma combinação de fatores obscuros, nossa sorte sobre a terra é sempre vaga e incerta.
O que conta, soberanamente, é a nossa capacidade de sonhar.
E eu sonho com a conquista da Libertadores no sábado. Pela primeira vez.
Um jogo, um dia, uma experiência que vai mudar, seja como for, o resto de nossas vidas.
Rodrigo Rosa começa uma Nova Escrita. www.novaescrita.art.br









