Futebol é sempre muito mais ócio do que negócio

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Futebol é sempre muito mais ócio do que negócio

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Melhor o ócio do que o negócio, já dizia o antigo ditado português.

Sirvo-me do provérbio para uma rápida análise do que vem acontecendo com o Botafogo no ano de 2025.

O time está sem técnico efetivo há mais de 50 dias. Perdeu oito das treze partidas que disputou, a maioria delas com formações alternativas. Abrimos mãos de duas competições importantes, a Supercopa e a Recopa, além de darmos adeus prematuramente ao malfadado Campeonato Carioca – e até à disputa da Taça Rio.

Mais do que um simples abandono, temos assistido a exibições pífias dos principais destaques do elenco na temporada passada: Barboza parece ter perdido o senso; Savarino não é sombra do jogador que foi em 2024; Marlon Freitas e Gregore dão a impressão de estar desconectados, em uma espécie de transe hipnótico do qual, esperamos, despertarão até abril.

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Além disso, os equívocos de planejamento da Comissão Técnica Interina já causaram duas baixas no time titular, Bastos e Artur, afastados por lesão.

Nesse meio tempo, arrastam-se as novelas das contratações, a ciranda de treinadores, a desinformação consentida de influenciadores e da grande mídia, acompanhadas de uma enxurrada de críticas à SAF.

A internet serve de arena para uma viva batalha entre os habituais detratores de Textor e os que enxergam no dono da Eagle um verdadeiro visionário, imbuído de ideias absolutamente revolucionárias no terreno dos negócios que só os néscios e os mal-intencionados não conseguem admitir.

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Não há que se negar que o norte-americano tirou o clube de um longo ostracismo, guindando-o novamente às manchetes da mídia e ao palanque das premiações. Contudo, nem os seus eventuais erros fazem dele um aproveitador apenas interessado nos lucros das transações do mercado de futebol, nem seus acertos evidenciam qualquer genialidade absurda jamais vista na gestão esportiva.

É bem verdade que a rede multiclubes da Eagle, ao contrário de muitas outras, favorece o Botafogo, já que não subordina as transferências de jogadores ao velho esquema da Divisão Internacional do Trabalho que praticamente restringe a função dos países mais pobres a fornecedores de recursos para os países centrais.

Também é evidente que Textor se envolveu emocionalmente com a mística alvinegra; suas ações, ainda que eivadas de um senso de marketing, parecem verdadeiramente genuínas e comprometidas com a História do clube.

John Textor levará sempre o mérito de ter concentrado investimentos em um clube praticamente falido, recém-saído da série B. É um executivo dedicado, com larga experiência corporativa e uma excelente rede de relacionamentos.

Porém, a verdade é que o norte-americano está aprendendo com a prática. Sua ênfase em submeter a dinâmica do esporte a um padrão negocial é perigosa. O futebol é um fenômeno complexo, multifatorial, antes um processo do que um evento pontual. Negligenciando os padrões tradicionais da fisiologia esportiva, da preparação técnica, tática e técnica para comprimir datas de pré-temporada, de acordo com as conveniências da empresa, ele acaba por arriscar não só o desempenho do time na temporada, mas os seus próprios investimentos.

A questão crucial está na organização da holding. A verticalização excessiva cria vácuos de poder no clube, sobrecarrega a Direção e compromete a tomada de decisões.

A lógica das cifras e os modelos gerais de gestão têm seus limites quando se fala de esporte. O futebol se dá essencialmente na relação entre pessoas: grupo de torcedores, elenco de jogadores, grupo de diretores, de funcionários, de jornalistas.

O esporte se faz através do prazer da participação, dos laços afetivos, da emoção do triunfo e da possibilidade da perda. Os números, as estratégias de negócio, todas as análises financeiras e todas as nuances de mercado são acessórios que não entram em campo, apenas secundam escolhas, apontam possíveis caminhos.

A decisão do triunfo ou do fracasso não está nos boards dos clubes, nem nas contas bancárias, nem nos vultosos aportes financeiros.

Está no coração de todos os envolvidos, no dos torcedores que vibram nas arquibancadas, no dos jogadores que o trazem na ponta das chuteiras. Está no trabalho de todos, preparadores, massagistas, faxineiros, cozinheiros, centenas de funcionários que trabalham em silêncio para que o milagre aconteça.

O sucesso recente do Botafogo, diga-se a verdade, não vem fundamentalmente de um business plan revolucionário. Claro que o clube melhorou sensivelmente a parte estrutural, de apoio ao atleta, de análise das estatísticas. O que ocorre, porém, é que o Campeonato Brasileiro tem um nível tecnicamente mais brando e acessível; com jogadores de medianos para bons, e um técnico europeu sem projeção, chegamos a impor, em 2023, uma vantagem surpreendente na primeira metade do certame; e, se não vencemos, foi em parte por erros de avaliação da Diretoria.

Em 2024, com alguns jogadores fora de série e um treinador mais experimentado, vencemos as duas principais competições do continente.

Enquanto isso, com a mesma filosofia de negócio, Textor e seus compatriotas congelaram o Crystal Palace no meio da tabela da Premier League; e o norte-americano ainda não consegue levar o Lyon nem mesmo à Champions.

Nada que o tempo não ensine. A vida é um constante aprendizado.

O ano está apenas no início. O futebol brasileiro, como dissemos, não tem supertimes. Com uma boa Comissão Técnica, e alguns reforços no elenco, temos condição de disputar as principais posições dos campeonatos que ainda estão por vir.

Ao torcedor, cabe dar todo o apoio à Diretoria, apesar dos percalços. De outra parte, é preciso que os donos da SAF entendam que a paixão é o cerne do esporte; uma questão de ócio, de deleite, de prazer que vai muito além dos números.

E por falar em ócio, vem aí o Carnaval. Que todos aproveitem para extravasar as frustrações do começo do ano; sabendo que, na Quarta-feira de Cinzas, faltarão apenas 25 dias para a estreia no Brasileiro.

 

Rodrigo Rosa é um eterno aprendiz da Nova Escrita http://www.novaescrita.art.br

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