Caros João Paulo Magalhães, André Silva e Durcesio Mello,
Antes de mais nada, obrigado. E, por mais clichê que isso possa parecer — e vocês já devem estar cansados de ouvir agradecimentos — lembrar do trabalho de vocês é mais do que necessário: é um dever cívico de qualquer botafoguense que cresceu em um clube pré-SAF.
Lembro muito bem das noites mal dormidas por conta dos vexames em campo. No entanto, não chegava perto da dor ao abrir o jornal e ler que o nosso clube estava atolado em dívidas, reflexo direto de péssimas administrações passadas. Um Botafogo que já começava errado por quem se sentava à mesa para representá-lo. Eram tempos de salários atrasados, falta de estrutura, contratações duvidosas com altos salários e, claro, acordos comerciais que manchavam a história do clube.
São sintomas de um câncer, que se instala por meio do amadorismo — esse mesmo amadorismo que premia a incompetência e que, por muitos anos, foi conivente com quem ocupava a cadeira mais importante de General Severiano.
A cada eleição, as promessas de mudança vinham acompanhadas de discursos inspiradores que perdiam no tempo e enfraquecidos à medida que a temporada avançava. A falta de perspectiva se aliava ao discurso “pé no chão”, pessimista, e toda expectativa de melhora era quebrada por algum episódio estarrecedor. E pior: causado pelas mesmas figuras que iam e voltavam ao clube como um câncer reincidente — comportamento muito parecido com da “boa” e velha política de Brasília, que inevitavelmente contamina também o esporte.
O temor de não haver futuro mostrava que o desempenho em campo era apenas a cereja de um bolo amargo, triste e solitário. A esperança dava lugar à revolta, a revolta se transformava em melancolia — e assim seguimos durante anos. Espasmos de bons momentos eram empurrados pela força da nossa torcida e pela grandeza desse clube tendo plena consciência de que a nossa luta nos fez passar pelos piores infernos, enfrentando figuras e grupos que jamais deveriam ter pisado no Botafogo.
2021.
E hoje? Tudo é diferente? Não sei. Mas aquele câncer chegou a um ponto em que passou a afetar até quem o causou. Em meio a brigas absurdas nos bastidores, o Botafogo teve, enfim, uma possibilidade de respiro. E, sabe-se lá como — e sinceramente, nem quero saber — a Lei da SAF foi aprovada no Brasil.
Sem escolhas e obrigados a fazer o que sempre deveríamos ter feito, profissionalizar-se tornou-se mais que necessário e isso só era possível se cortassemos o mal pela raiz. e até mesmo aqueles que causaram tanta desgraça ao clube, por alguma expectativa de ganho pessoal, aceitaram o bem.
Confesso que ainda me incomoda ver o restante dessas mesmas figuras passeando pelo clube como culpados sem condenação — e pior, com alguma influência, mesmo que mínima. Mas me conforta saber que os tempos são outros, nada tão assombrosos quanto aqueles da minha infância.
Hoje, o Botafogo tem gestão. Tem capital. Aqueles simbólicos R$ 33,00 na conta, que marcaram o fundo do poço, deram lugar a grandes contratações, infraestrutura, investimento em categorias de base e melhorias que recolocaram o clube onde ele nunca deveria ter saído.
Porém, aquele velho ditado popular — “Há coisas que só acontecem ao Botafogo” — Sempre irá pairar em nossas mentes como um alerta constante sobre o futuro e não demorou muito pra sirene tocar.
Ao Botafogo associativo: não falhem.
Quando surgiu a notícia dos problemas de John Textor dentro da própria empresa, ficamos de antena em pé — mas não desesperados. O Lyon era, e sempre foi, um mal necessário dentro da holding. Compreender o futuro do grupo num momento conturbado era necessário para não cairmos no pânico alimentado por tudo o que lemos e ouvimos dessa mídia suja.
Nunca imaginávamos que o Botafogo poderia ser peça dessa equação, mesmo estando sob o mesmo guarda-chuva. Mas sabem o que aprendemos? O câncer se regenera se não for tratado
Senhores, a pilantragem e a sacanagem estavam tentando voltar ao Botafogo — agora com um novo rosto e formato. Mas, graças a Deus e ao trabalho brilhante de Jonas Marmello e do advogado Raphael Sá, verdadeiros anjos que redigiram o contrato da SAF, não acabamos nas mãos de pessoas mal-intencionadas.
Senhores, o trabalho de vocês é mais do que limpar piscina. Vocês não são parte do que restou do passado tenebroso — são a cara de uma nova era. Não quebrem a confiança da torcida.
O social sempre foi — e continuará sendo — fundamentais na história deste clube. Esta SAF nas mãos do Textor só foi possível graças a alguns de vocês em conjunto de uma torcida resiliente
E que fique claro, de uma vez por todas:
Não há espaço para 10% de amadorismo no Botafogo.
Esperamos que se mantenham firmes e alinhados com todos aqueles que querem o bem deste clube. Afinal, não queremos que nossos filhos tenham o desprazer de abrir o jornal e ler as mesmas manchetes que nos causaram dor por décadas.
Com carinho,
sua torcida.









