Botafogo campeão da Libertadores: uma dedicatória

Reprodução

Facebook
Threads
WhatsApp
Twitter

Botafogo campeão da Libertadores: uma dedicatória

Continua após a publicidade..

Anos 70. Um bairro pobre de Nova Friburgo, nos vales da serra. Às oito da manhã de sábado, os amigos já me acordavam, batendo no madeirame das janelas.

“Bora. Já é tarde. Chega de dormir.”

Eu me levantava apressado, vestia o short, a camisa, calçava os tênis surrados e apanhava a bola debaixo da cama.

Ao abrir a porta da varanda, apertando os olhos por causa da claridade, já divisava oito ou dez moleques à minha espera, a maioria descalços, para poupar o único par de sapatos que tinham.

Continua após a publicidade..

Íamos contentes para o outro lado do terreno, jogando a bola uns para os outros, no caminho.

Eu era o único garoto do bairro a ter um campo de futebol em casa. Não tardei a fazer muitos amigos. Virei popular na região.

Vinte, trinta garotos passavam por ali a cada fim de semana. Um cercadinho de terra batida, erva rala, traves pintadas de branco. Um campinho acanhado, que na nossa imaginação era vasto como o Maracanã, maior do que os maiores estádios do mundo.

Continua após a publicidade..

Os times se formavam naturalmente:

“Quem perde sai, quem ganha fica.”

Manhãs de sol, tardes cinzentas, sábados e domingos. Jogávamos ali a nossa infância, de corpo inteiro, sujos de terra, lavados pelos pingos da chuva.

“Vem comer, menino.”, minha mãe gritava de longe.

“Já vou, já vou.”

E não ia, até que meu pai ralhasse bem sério:

“Vem logo, moleque, ou vou parar o jogo.”

Eu voava para casa, comia às pressas, comida pouca, para não dar aquela dor apertada no lado da barriga; e voltava correndo.

“Olha que vai fazer mal, jogar bola depois do almoço.”

E o que a gente gosta mesmo lá faz mal?

Quando a fome e a sede apertavam, no intervalo entre uma e outra partida, a gente bebia água da fonte na torneira da caixa, comia fruta tirada do pé.

Fiquei conhecido no bairro. Mas tinha dois amigos de preferência, sobrinhos do vizinho, botafoguenses como eu.

O caçula, Joílson, era o mais fanático da turma. Andava sempre colado nas notícias do time, assistia aos jogos na TV.

Quando íamos para o baile, entre uma dança e outra, ele dava um jeitinho de perguntar ao porteiro o andamento da rodada, e vinha me dizer no ouvido, para o resto da turma não escutar.

“O Botafogo empatou. Gol do Mendonça.”

Sofremos juntos o jejum de títulos. Ele era novo demais no bicampeonato de 68.

O tempo passou. Por conta da Faculdade, eu vim definitivamente para o Rio. O destino se interpôs, desfez a nossa juventude.

No sábado passado, Buenos Aires se vestiu de branco e preto. Os botafoguenses encheram as ruas. Bateram recordes de renda.

Aos 30 segundos, apreensão. Gregore expulso em um lance casual. O time teria de jogar com um a menos durante toda a partida.

Uma campanha de meses, uma temporada inteira parecia prestes a ir por água abaixo.

O treinador foi corajoso. Manteve a equipe. Os jogadores se multiplicaram.

“Nós viemos dos campinhos de terra”, lembrava Júnior Santos, na preleção.

Luiz Henrique, menino das peladas nos vales da serra de Petrópolis, pegou de cheio uma bola que carambolou aqui e ali para se oferecer a ele.

Botafogo um a zero. Sorriso nos rostos. A esperança voltava.

O mesmo moleque franzino de Carangola acreditou na jogada, correu como quem corria nos gramados ralos da infância, moleque ligeiro, driblando o goleiro, sofrendo pênalti.

Telles converteu e comemorou chorando, soltando a emoção que era de todos os torcedores, abraçados nas arquibancadas, nos bares, nas salas de todo o país.

“Quando pisei no campo, percebi que essa era a terra prometida”, gritava Marlon Freitas, no vestiário.

No relvado da nova Canaã, depois de um susto no primeiro minuto do segundo tempo, Júnior Santos recebeu a bola na direita, marcado por dois, junto à linha de fundo.

“Prende, prende”, os colegas gritaram.

Jogo no fim. Era o mais certo a fazer. Mas o menino rebelde do interior da Bahia, o jovem pedreiro que quase abandonou o futebol, não quis fazer cera. Desobedeceu.

Um drible de letra, incrível; os marcadores ficaram para trás. O ponta foi generoso, tentou servir ao companheiro. Mas a bola voltou para ele, o escolhido, o predestinado.

Júnior Santos mergulhou e fez o gol de canhota. O banco explodiu; Artur Jorge, as mãos na cabeça, foi ao chão, abraçado pelos jogadores.

Botafogo campeão da Libertadores 2024.

No dia 23 de dezembro de 1987, depois de cinco anos de ausência, voltei a Nova Friburgo.

Encontrei Joílson por acaso. Ele estava de casamento marcado. Tinha até comprado os móveis, viera receber a última peça.

Descemos juntos para o centro. Encontramos os amigos na porta da fábrica. Relembramos os velhos tempos, ao redor de uma mesinha bamba, no bar da frente.

Voltamos para casa depois do último ônibus, a pé pela estrada. Como sempre fazíamos.

Joílson, o caçula da família, botafoguense fanático, teve a sua última noite de folga.

Um carro desgovernado invadiu o acostamento da RJ 116. Fomos colhidos por trás. Por milagre, eu escapei ileso. Ele foi arrastado pelo veículo, imprensado contra um muro. Morreu na hora. Nos meus braços. Às vésperas do casório. Às vésperas do Natal.

Não viu o fim do jejum de títulos. O bicampeonato em 90. O Brasileiro de 95.

A glória eterna da Libertadores, conquista inédita, heroica, imensa.

Dedico hoje ao meu amigo de infância esse título e esta crônica.

*Os nomes foram mudados para preservar o anonimato dos envolvidos.

Rodrigo Rosa é um sobrevivente da Nova Escrita. www.novaescrita.art.br

Picture of Rodrigo Rosa
Rodrigo Rosa
Ver Artigos

Outros Posts

Continua após a publicidade..

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


AO VIVO
Brasileiro Sábado, 25 de abril, 18:30
Estádio Mané Garrincha
Botafogo Botafogo
x
Inter Inter
Continua após a publicidade..
Continua após a publicidade..
Continua após a publicidade..

InsiderBotafogo

MENU
POST RECENTE