Em seu famoso “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, o sociólogo alemão Max Weber traça um interessante paralelo entre as religiões reformistas e a cunhagem de uma cultura do capitalismo na Europa e na América do Norte.
Pensei logo no caso brasileiro. Capitalismo nunca pegou muito em nossas terras tropicais. Não é que a gente não se esforce. Acho que talvez nunca tenhamos compreendido bem qual é realmente o espírito do negócio; e, na falta de um melhor entendimento, improvisamos um arremedo qualquer, ao nosso estilo, e vamos tentando sobreviver assim mesmo.
Com o futebol é diferente. Levamos a lição inglesa ao pé da letra, com uma devoção próxima do fervor. E quem se escandaliza com a comparação, é porque nunca esteve domingo em um estádio cheio, na decisão de um campeonato.
O brasileiro é um devoto do esporte, não há dúvidas. Um crente por natureza. Só que essa crença, obviamente, assume diferente matizes, dependendo da modalidade do culto.
Há times que são como o catolicismo: de adoção corriqueira, quase uma inclinação natural, um pendor básico que não necessita de grande estímulo. O que dizer de um flamenguista, de um palmeirense, de um corintiano? Que eles seguem o fluxo, nada mais. E isso lhes basta.
Há outras crenças um pouco mais reformistas; ainda assim, elas são todas eivadas dessa racionalidade simples, que exclui por si mesma sentimentos extremados, reações dramáticas, violentas exaltações. Pense em um são paulino, em um tricolor carioca, em um torcedor colorado. Times equilibrados, que vez por outra ganham um campeonato, e se fazem lembrar sem estardalhaço.
Ser botafoguense é de uma outra ordem. Requer um chamado especial, uma vocação profunda. Uma contemplação solitária. Um arrebatamento. Ser botafoguense é uma experiência próxima daquela registrada pelos grandes místicos alemães, um Eckhart, um Suso, um Tauler.
O botafoguense tem seus ritos próprios. Está sempre só em sua crença, ainda que no meio da multidão. Duvida? Pois dê uma olhada nos takes da torcida botafoguense durante a cobrança do pênalti na decisão do título da Libertadores. Uns aparecem sentados, as mãos retorcidas apoiando o rosto, de olhos fechados, contritos. Outros simplesmente deram as costas ao campo, pondo-se de pé, de braços abertos, como se pregassem a uma turba invisível. Alguns, de punhos fechados, murmuram fórmulas cabalísticas desconhecidas. E os menos fervorosos simplesmente dão-se as mãos, em uma grande corrente.
É que o botafoguense é escolado. Já sofreu décadas de privações, de sacrifícios, longos jejuns de títulos, tribulações dignas de um mártir. Maltratado pelo destino, espezinhado pelos colegas de trabalho, profundamente angustiado nas segundas-feiras de serviço, lá no fundo, em meio a tantos dissabores, ele sorri, lembrando talvez o versículo bíblico. Os humilhados serão exaltados. É preciso crer, crer até o fim.
O caminho para a redenção, todos sabem, não é fácil. Mas guarda os seus momentos de êxtase. O gol de Carli nos acréscimos, na conquista do Carioca contra o Vasco. A cavadinha atrevida de Loco Abreu na final do Carioca contra o Flamengo. O gol na raça de Maurício no fim do grande jejum, em 89.
Grandes são as provações; imensas serão as recomenpensas divinas. Como explicar o desastre de 2023, quando o campeonato estava em nossas mãos? E a redenção absurda no ano seguinte, em terras argentinas, em uma partida em que jogamos com um a menos desde o primeiro minuto?
Há coisas que só acontecem com o Botafogo? O chavão fica a meio caminho da verdade. Torcer pelo time da estrela solitária é saber que o imponderável está sempre na ordem do dia. O inesperado é o mais provável. Entendeu? Não? Pois então apenas aceite.
Nessa semana, tivemos o sorteio dos grupos da Libertadores. Claro que só podíamos esperar o improvável. Caímos em um grupo com Estudiantes, Universidade Católica do Chile e um time venezuelano que, não nos enganemos, de bobo só tem a cara. Não há mais jogo fácil.
Nosso time ainda é uma incógnita. Os jogadores remanescentes da campanha pregressa não decolaram este ano. Os recém-chegados têm de se adaptar. O novo treinador dispõe menos de um mês efetivo de trabalho antes da estreia na temporada.
O que vai ser de nós? Não se aflija, irmão de camisa. Concentre as suas reservas de energia. Prepare os seus ritos. Vem aí uma nova experiência de fé, versão 2025. Uma nova “Unyo Mistica”.
A situação parece difícil? As conquistas se afiguram novamente impossíveis? Pois se você é mesmo botafoguense, do fundo da minha alma, só posso lhe dizer uma coisa: acredite.
Rodrigo Rosa é um devoto da Nova Escrita http://www.novaescrita.art.br









