Em tempos de crise, voo para o Rio para me encontrar com o meu guru alvinegro.
Maneco é um botafoguense das antigas, do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Pela idade da comparação da frase anterior, dá para imaginar o tamanho do bochicho.
Encontrei-o, como sempre, em um bar escondido numa transversal de Botafogo, perto do metrô, onde o meu amigo tem cadeira cativa.
Maneco vinha chegando do balcão, com sua surrada camisa 7 e uma dose de Fernet na mão.
Ele saudou-me com um aceno e sentou-se, depositando o copo à sua frente.
Puxei uma cadeira e fui logo perguntando como estavam as coisas.
Maneco deu um muxoxo.
– De mal a pior, Digo. De mal a pior.
Dando um gole na bebida, ele prosseguiu, com uma expressão de desânimo.
– O mundo está virado. Não acompanho mais as coisas. É tanto aplicativo que eu nem tenho mais espaço na memória na memória do celular. Mal me acostumei ao Facebook, e todo mundo já passou para o Instagram. Nem faço força para postar no meu perfil. Tenho certeza de que, se me empenhar muito, as pessoas vão trocar de plataforma.
– Entendo a sua frustração. – eu comecei.
Ele me encarou, franzindo a testa.
– Não, você não entende. No outro dia, no mercado, vi duas garotinhas de uns sete anos no meio do corredor, celular em punho, imitando uma dancinha daquele aplicativo…Como é o nome…Tok Tok.
– Tik Tok. – eu corrigi.
– Tik Tok, Tik Tak…Para mim pouco importa. Se eu fizesse a mesma coisa na minha época, ia ser chamado de tantã.
Não pude deixar de rir – e meu interlocutor se aborreceu.
– Estou falando sério, Digo. É tanta notícia contraditória que não se sabe mais em quem acreditar. Textor vai fazer uma IPO. A IPO foi cancelada. Textor vai vender sua participação no Crystal Palace. A venda já não vai mais acontecer. Rollheiser é do Botafogo. Rollheiser assina com o Santos. A Eagle tem problemas financeiros. A Eagle tenta contratar Cristiano Ronaldo.
Ele fez uma pausa, extenuado, para beber mais um gole de Fernet.
Aproveitei para comentar que vivemos em tempos velozes. Na era da informação.
– Vivemos é na era da enganação. – ele sentenciou. E não pude deixar de lhe dar uma certa razão.
Maneco se recostou no espaldar da cadeira, com um olhar de cachorro magro em dia de chuva.
– Torcer ficou muito complicado. Acho que já não é para mim.
Indaguei-lhe por quê; e o Maneco me respondeu, com um suspiro:
– Li a última nota da SAF do Botafogo. Que o Wendel não venha mais, eu até posso suportar. Já vi times muito piores. Mas me diga só uma coisa…
Ele fez uma pausa expectante. Inclinei-me para ouvir melhor.
– O que diabo é “geopolítica”?
Rodrigo Rosa só se entende no mundo da Nova Escrita http://www.novaescrita.art.br









