Apesar do triunfo mais do que esperado contra o Bragantino, as dúvidas com relação ao futuro do Botafogo cresciam em minha mente.
Para apaziguar os meus fantasmas, resolvi ligar novamente, logo após a partida, para o meu Sansei Alvinegro, o Maneco, botafoguense do tempo em que mil réis era moeda corrente.
Encontrei-o no bar de sempre, em uma transversal da Mena Barreto, onde ele tem cadeira cativa, e transmissão ao vivo.
Creio que ele sabia do motivo da minha ligação. Por isso, depois dos comentários de praxe sobre o jogo, ele fez um silêncio e comentou:
– Digo, quer saber? Andei lendo uns contos de Literatura. Acho que vai se interessar pela história.
O Maneco não era muito de livros. Sabendo disso, afiei os ouvidos.
– Li um relato interessante. Ele se passa nas montanhas geladas do Oregon. Lá vivia um caçador, cujo nome era John Wood. Um sujeito esperto, rápido no gatilho, mas não muito previdente.
John vivia em uma cabana no alto da montanha. Morou lá durante três anos. Tudo correu bem no princípio. No verão do terceiro ano, a caça foi especialmente boa. John Wood se empolgou. As lebres caíam fácil nas armadilhas, os alces pareciam se oferecer à mira da espingarda. John acumulou carne para muitos anos. Na empolgação, no entanto, esqueceu-se de um detalhe fundamental: a lenha para os períodos de frio.
O inverno chegou. Rígido, frígido, impiedoso. Os caminhos se cobriram de alvura. A nevasca soprava, inclemente.
John tinha comida de sobra. Mas não tinha estoque suficiente para aquecer a cabana. A lenha disponível acabou rápido. John teve medo.
O caçador saiu no meio da borrasca, machado em punho. O frio cortava o seu rosto. Suas mãos lhe doíam. O gelo descia em suas sobrancelhas.
Ele tentou cortar um pinheiro. O tronco estava rijo como pedra. Não cedeu aos seus golpes. As ramadas pesavam com a neve acumulada. John teve que desistir, ofegante, após cerca de meia hora de esforço.
O caçador voltou à cabana. As chamas morriam na lareira. Não lhe restava outra opção.
John olhou para a mobília. O sofá foi o primeiro a ceder sobre os golpes do seu machado. Seus pedaços aqueceram o fogo.
Nos dias subsequentes, a destruição prosseguiu. Sem alternativas, ele acabou por se desfazer da mesa, das cadeiras e, por fim, da própria cama, encostando o colchão no canto da sala para ter onde dormir.
A tempestade continuava lá fora. John fez outras tentativas de obter lenha para o fogo. Em vão.
Por fim, enregelado de frio, ele foi obrigado a demolir a própria cabana de madeira.
O canto da habitação foi a primeira fonte de combustível para a lareira. Contudo, à medida que destruía a própria cabana, John percebeu que o frio aumentava, o vento soprando pelas frestas das ruínas.
Nessa altura, o Maneco fez uma pausa. Eu já estava na ponta dos pés. Ansioso por ver o relato chegar a termo.
Como vi que ele não se pronunciava, resolvi avançar com a pergunta mais óbvia, nas circunstâncias:
– Então, Maneco? Como a história termina?
Ele deu um suspiro, e disse apenas:
– Digo, sinceramente, eu não sei.
Em seguida, ele arrematou:
– Pense você em um final. Porque no momento eu preciso mesmo é de mais umas duas doses de Fernet, para dormir em paz.
Meu amigo desligou. E fui eu que não consegui adormecer.
A noite descia sobre a cidade de São Paulo. Minha mente vacilava sobre o cinza dos prédios, em profunda angústia.
Eu sabia que não conseguiria pregar o olho sem imaginar um final para a história. Depois de rolar a esmo nos lençóis, uma ideia me ocorreu.
Sem mais recursos, John Wood resolveu abandonar a cabana. Reuniu suas provisões, algumas ferramentas, a espingarda a saiu sob a nevasca.
Depois de andar a esmo, as botas enfiadas na neve, achou uma caverna no bosque. Ali se abrigou. Com os galhos que pôde arranjar, fez uma fogueira. Assou a carne que havia caçado. Sobreviveu.
Quando a tempestade amainou, John desceu para o vale. Abandonou de vez a sua antiga morada. Nunca mais foi visto.
Talvez, um dia, um Viajante perdido nas montanhas ache a cabana abandonada. Imagino-o como um jovem de braços fortes. Com disposição. Um idealista.
Talvez ele se agrade do lugar. Talvez derrube algumas árvores do bosque. Quem sabe não se deixa ficar, e recompõe a pequena habitação?
Imagino que ele entenda o que se passou. Pelas cinzas na lareira. Pelas brechas nas paredes.
Espero que ele honre os que ali vieram antes de sua estadia. Que reconstrua a cabana. Que a aumente de alguns cômodos, quem sabe?
O Botafogo é essa casa imaginária, meus amigos. Ele pertence a todos nós.
Não aos viajantes de passagem. Jamais.
Rodrigo Rosa é um viajante perene da Nova Escrita. http://www.novaescrita.art.br









