Foi assim contra o Fluminense. Contra o Grêmio. Contra o Criciúma. Ontem, o personagem do outro lado do campo era o Atlético Mineiro.
Parece que estamos vendo o mesmo roteiro, com diferentes antagonistas. O adversário entra para não jogar. Atletas caem no gramado a todo instante. As faltas se sucedem, irritam o torcedor, picotam o espetáculo. As equipes vêm armadas com uma linha de cinco ou seis defensores próximos da área. O Botafogo avança o meio de campo, empurra o oponente para trás. Tenta criar de todas as maneiras; mas a bola não entra.
São 180 minutos sem marcar. Mais de 50 finalizações só nos últimos dois jogos. Tudo em vão. A pontaria parece descalibrada, os atacantes tomam a decisão errada no lance final; quando a bola vai em direção à meta, o goleiro adversário faz milagres.
Dirão que ontem foi ainda pior. Tivemos um a mais desde o final do primeiro tempo. A questão é exatamente essa. Com a expulsão, o treinador do Atlético tirou Paulinho para pôr em campo mais um defensor. Mesmo jogando em seu campo, e precisando da vitória, a equipe mineira abdicou inteiramente do jogo. E o Botafogo não soube aproveitar a vantagem numérica. Por quê?
Pode-se argumentar que o time entrou em campo desfalcado. Alguns atletas começaram a partida cerca de 24 horas depois de terem jogado pelas Eliminatórias. Coisas da CBF. A entidade organiza o campeonato e gere a Seleção. É óbvio que não deveria expor ambos os lados a uma escolha em que um deles sairá inevitavelmente prejudicado. É um contrassenso evidente. Mas isso são outros quinhentos.
O filme não mudou muito por conta desse detalhe. A verdade é que o Botafogo está sendo vítima do seu próprio favoritismo. Ninguém tem ousado desafiar a superioridade alvinegra. Os adversários se acovardam, se apequenam. As péssimas arbitragens em nada contribuem para coibir a cera. Mas não é só isso.
É preciso aprender a jogar contra as adversidades. E o Botafogo ainda está longe de uma leitura melhor desse tipo de jogo.
Se o oponente encurta o espaço, é preciso alargar o campo. Fixar os atacantes nas extremas, subir os laterais. Savarino, que não jogou ontem, costuma buscar a infiltração pelo meio. Luiz Henrique tem o hábito de se aproximar da meia direita. As laterais do campo ficam restritas aos alas. Não há jogadas de profundidade. Ora, os cruzamentos da intermediária são desvantajosos para o atacante, que está de costas para a bola. Ao contrário, os defensores, de frente para a jogada, têm posição mais favorável para o corte.
Os lances de linha de fundo, por outro lado, são o terror das defesas. O atacante entra de frente para o crime, sem impedimento. A bola pode vir cruzada no primeiro ou no segundo pau; ou simplesmente rolada para trás, em direção ao jogador que entra em diagonal, ou que recua para finalizar livre de marcação.
O manual para furar retrancas é bem claro. Aproximação dos armadores, triangulações rápidas, jogadas de fundo. O Botafogo tem feito tudo errado.
Quando o time segue a cartilha, a coisa fica fácil. Vejam o segundo tempo contra o Peñarol, por exemplo. Abriu-se a porteira; em seguida, o que se viu foi uma sacolada de gols.
Os meias alvinegros têm a tendência de cadenciar demais o jogo. Cabe ao treinador orientar. Arthur Jorge é um grande técnico. Conhece o bê-á-bá do futebol melhor do que ninguém. Está na hora de obter de seus comandados uma resposta efetiva.
Dois pontos separam o time do segundo colocado. Na próxima rodada, o Vitória tende a vir tão fechado quanto os adversários das últimas partidas.
O Botafogo administrou a sua vantagem o quanto pôde. É tempo de vencer ou vencer.
Rodrigo Rosa é titular da Nova Escrita www.novaescrita.art.br










