Minha primeira aula de Karatê. Pela manhã, o átrio principal da Academia já estava lotado. Os alunos se aprontavam, amarrando a faixa branca na cintura, ajeitando o quimono, quando o Mestre nos chamou para junto dele, no centro do tatame.
Com um gesto, ele nos fez sentar em círculo, antes de dizer, com uma voz grave e tranquila, olhando a todos nos olhos, de uma só vez:
– Nossa primeira lição…é muito simples…
Toda a nossa atenção estava voltada àquela figura mansa, traços orientais, uma dignidade sutil em cada gesto.
– Aconteça o que acontecer…Nunca percam a calma…
A lição do Mestre me veio à mente ontem, clara, inelutável.
O Botafogo sofreu durante toda a semana. Achaques, ofensas, uma pressão absurda. Um teatro orquestrado pelo próprio Governo uruguaio, um drama repleto de cenas lamentáveis, de narrativas forjadas, de ameaças explícitas.
A Comissão Técnica precisava firmar posição. Com vários jogadores pendurados, Artur Jorge quebrou a cabeça para levar a campo um time que não comprometesse a final quase certa em Buenos Aires.
As ausências se fizeram logo sentir. Mais do que com os desfalques, a equipe começou a sofrer com o clima de guerra, com a falta de entrosamento, com um certo assombro que parece pairar sobre o clube, fantasmas do passado que as inventivas de parte da mídia insistem em querer invocar.
Como se não fôssemos capazes, como se não merecêssemos uma grande conquista.
Uma partida é sempre obra do momento. Há nisso qualquer risco imponderável que faz do futebol a paixão de milhares de torcedores ao redor do mundo.
Um sentimento coletivo. Assim é o tênue equilíbrio do futebol: de uma à outra surpresa, na fronteira do absurdo, no limiar do impossível.
O time começou nervoso. O meio de campo não marcava; mesmo com três volantes, a equipe acabou sendo empurrada para trás; os atletas rifavam a jogada, com muitos erros de passe, a bola queimando o pé.
O Peñarol jogava mais na empolgação do que na técnica. O Botafogo foi se aguentando como pôde; até que Báez acertou um arremate improvável, no ângulo superior esquerdo da meta defendida por John.
O gol animou os uruguaios: jogo de abafa, chuveirinhos na área, bate-rebate, bola na trave. Lembrei-me novamente das palavras do sansei. Nunca perder a calma.
Pois foi o que fez o goleiro adversário, na saída do intervalo, agredindo John de forma covarde.
O árbitro, que ignorou solenemente a violência dos uruguaios na primeira etapa, dessa vez não pôde se omitir. Cartão vermelho. Voltaríamos com superioridade numérica para o segundo tempo. A sorte voltava a nos sorrir.
Começamos bem melhor a etapa final: bola rolando de pé em pé, jogo ofensivo, fazendo o tempo e o adversário correrem.
Em uma jogada perigosa, no entanto, o árbitro voltou a fazer das suas. Tiquinho invade a área, a bola toca na mão do defensor uruguaio e sobra limpa para Vitinho, cara a cara com o goleiro. O juiz interrompe o lance, marcando pênalti. Depois, com a revisão do VAR, volta atrás na decisão. O Botafogo foi prejudicado duas vezes na mesma jogada. Um feito inédito, obra de um verdadeiro artista do apito.
Um erro desse porte desestabiliza qualquer time. Em um vacilo da defesa, Vitinho dá o bote errado, a cobertura não chega e Báez, sempre ele, acerta outro chute inesperado, do meio da rua.
Dois a zero. A torcida vai ao desespero. A diferença no saldo de gols, no entanto, ainda é significativa. E continuamos com um a mais.
Pois Mateo Ponte, que entrara em lugar de Vitinho, resolve acabar até mesmo com essa vantagem, atingindo deslealmente dois adversários em menos de três minutos, bem na frente do juiz. Lances de pura imaturidade; um erro bobo, infantil.
O lateral alvinegro é expulso. Nunca perder a cabeça. Nesse ponto do jogo, a frase parece absolutamente inútil, inverossímil, quase uma piada de mau gosto.
Artur Jorge vê-se obrigado a arriscar, pondo em campo alguns jogadores pendurados. Almada entra com brilho, segurando a bola, criando lances ofensivos, apresentando-se perto da área adversária. Barboza compõe a zaga, substituindo Bastos, que já levara cartão no primeiro tempo.
O Botafogo cresce, vai para cima. Em uma troca de passes inteligente, o meio-campista argentino aparece para descontar, já no fim do jogo.
O Peñarol parece vencido. Em seguida, porém, o destino apronta mais uma das suas: um lançamento em profundidade, pelo meio da zaga, encontra Batista livre na área botafoguense. O uruguaio parte para a dividida. John, por cautela, evita o choque. Nunca perder a cabeça.
Três a um. Pouco importa. O jogo termina; o Botafogo está na final da Libertadores, pela primeira vez em sua história.
Aconteça o que acontecer.
Rodrigo Rosa é um aluno da Nova Escrita www.novaescrita.art.br









