Tenho um amigo botafoguense. Claro. Não podia deixar de ser. Mas deixe-me explicar o drama. Meu amigo não é qualquer um.
O Maneco Ranheta é botafoguense das antigas. Conheceu Nilton Santos. Biriba. Viu o primeiro título estadual. Sei lá. Às vezes acho que o Maneco confunde a História do clube com as suas próprias vivências, mistura, cruza os relatos, faz uma confusão das grandes.
Eu não disse que ele era um botafoguense das antigas?
Já não via o Maneco há um bom tempo. Como um alvinegro raiz, ele mora em Botafogo, bairro que ficou conhecido mundialmente por abrigar o atual campeão do Campeonato Brasileiro e da Libertadores. Para falar a verdade, nunca fui à casa dele. Mas nem precisa. O Maneco bate ponto quase todo dia em um boteco lá por trás da Mena Barreto. É onde tenho a certeza de achá-lo, sempre que vou ao Rio.
Nosso mais recente encontro teve um leve toque de sadismo. Calma. Vou explicar. O Maneco é um botafoguense típico. Obcecado por rituais. Aferrado à sua camisa de sorte, que deve estar em sua 355° versão. Louco pelo clube. E muito, muito pessimista…
Essa entressafra de técnico, time titular, disputa do Carioca era mesmo a pior época para encontrá-lo. Mas sei lá. Como bom botafoguense, eu precisava me pôr à prova. Precisava sacudir as minhas crenças.
Achei-o na mesa de sempre, na calçada, sob o toldo verde esmaecido do boteco, vestido à caráter, a estrela solitária brilhando no peito, uma cerveja baixa renda pela metade e um shot de Fernet à sua frente.
Como eu disse, a ocasião não podia ser mais inoportuna. Estamos completando mais de 40 dias e 40 noites sem treinador; depois de muitas especulações, por ora temos de nos contentar mesmo é com a troca do Leiria pelo Caçapa.
Eu sabia que o assunto da conversa seria esse, e não o jogo com o Racing pela Recopa: afinal, nosso Chefe determinou que a torcida de verdade só começa em abril.
Saudei o meu amigo e puxei uma cadeira; e o Maneco me devolveu apenas um resmungo.
– Você viu… – ele começou.
Sabia que não podia ceder. Não podia deixá-lo desfiar a sua torrente de queixas – e reagi, antes que ela me arrastasse também para os abismos da descrença.
– Neco, eu sei o que você vai dizer. Mas vamos com calma. O ano está só no começo.
– Mas… – ele insistiu, passando a mão no cabelo ralo, cuidadosamente penteado para disfarçar a calva proeminente.
Não lhe dei colher de chá.
– Tudo bem, o Jardine não veio. Nem o Benitez. Mas não foi culpa de ninguém.
Ele fez um gesto de impaciência – e eu prossegui mesmo assim, fingindo-me de desavisado.
– O Conceição preferiu o Milan. O Paulo Fonseca quis ir para o Lyon. Fazer o quê?
– Poxa, Rodrigo… – ele se queixou.
Enchi o copo que o atendente depositou à minha frente e continuei despejando a minha cantilena.
– O Mancini é muito caro. Não há que se cometer uma loucura. E o Vasco, bem…quer saber? É até melhor que não venha.
A essa altura, o Maneco já tinha virado a sua dose de Fernet, conformado com o fato de que eu não ia interromper a minha defesa.
– Quem sabe o Caçapa não surpreende domingo? – eu disse finalmente, tentando mudar o tópico da conversa.
– Mas o problema não é esse… – meu amigo disparou, contrariado.
A fala me pegou de surpresa.
– Não? – eu balbuciei – Nem o Jardine…nem o Rafa…nem o Mancini?
O Maneco moveu a cabeça de um lado para o outro, seguidamente, antes de afirmar:
– Rodrigo, eu não me importo.
E, inclinando-se sobre a mesa de metal, ele sussurrou enfim, quase em lágrimas, não sem antes olhar de um lado para o outro, para ter certeza de que ninguém o ouvia:
– Pelo amor de Deus, só não deixa vir o Tite…
Rodrigo Rosa é um estranho caso da Nova Escrita. http://www.novaescrita.art.br








