Durante muitos anos vivemos e presenciamos o futebol de forma muito simples. Os tempos eram outros — e a busca por talentos não era diferente. Aqui no Brasil, os métodos eram essencialmente visuais: os famosos “olheiros” ou dirigentes, sujeitos apaixonados por futebol que procuravam nos campos de várzea, aquele garoto que driblava três e fazia chover em campo… Eram os responsáveis por descobrir a promessa daquele clube e o colocavam como “o talento do século”, pondo em seus ombros a pressão e a esperança de toda uma família.
Algo que, na maioria das vezes, não dava certo. Aliás, quase nunca deu.
Quantos de nós não conhecemos — ou ouvimos falar — de promessas que foram capitaneadas por empresários ou olheiros de beira de campo e que, no fim, se tornaram pessoas comuns como eu e você? sem contar os casos de covardias, privilégios a filhos de pessoas com boas condições financeiras e zero talento tomando lugares de meninos promissores, é, a sacanagem no futebol começava de baixo.
Isso ainda existe. Porém, hoje, em 2025, o mundo mudou — e o futebol não ficou para trás. Aliás, com as transformações recentes, muito se debate sobre qual seria a melhor forma de fazer futebol: a de hoje ou a de antes?
Não vou vestir a carapuça saudosista para levantar essa discussão. Prefiro falar sobre como a modernidade moldou a forma como os clubes enxergam talentos, colocou a Europa no centro do futebol e vem transformando nossa percepção sobre esse esporte.
A tecnologia a favor, como a Europa modificou sua forma de fazer futebol
Com a globalização do esporte, os clubes europeus passaram a moldar suas estratégias para buscar jogadores. Querendo melhorar o “produto”, decidiram encontrar os famosos young players — como gostam de chamar atletas promissores. Claro, antes desses métodos modernos, craques já migravam para a Europa. Mas era nítido que, para ser notado, um jogador precisava provar muito por aqui, especialmente se quisesse sair de uma liga forte porém pouco estruturada para uma mais fraca e totalmente organizada.
E apesar de sermos pioneiros e historicamente talentosos, lá fora sempre houve mais glamour, visibilidade e, principalmente, dinheiro. E isso pesava na escolha de qualquer carreira.
Os clubes europeus não se limitavam ao que viam no momento. Percebendo o futebol como um negócio rentável, queriam ser o centro — não sendo apenas quem contratava jogadores prontos, mas quem os encontrava antes do sucesso. Um movimento drástico, feito com inteligência e visão estratégica por países que não revelavam craques em grande escala como o Brasil e toda a América Latina.
A chegada dos anos 90, aliada ao avanço da tecnologia, mudou tudo. Com os recursos certos, financiamento pesado e planos de carreira, os europeus puderam melhorar o seu produto. Levando promessas para ligas mais fracas (Premier League) e não se limitando apenas à América Latina, se tornando frequente a chegada de mais promessas do continente africano. “Quanto mais pobre e pouco estruturado for o país daquele garoto, mais chance eu tenho de tê-lo desfilando seu talento aqui, sob a minha bandeira”, pensavam.
E foi nesse contexto que começaram os debates: por que é permitido que países ricos passem a oferecer naturalizações, tirando jogadores de suas nações de origem e os levando a disputar Copas do Mundo por bandeiras estrangeiras?
A Europa não precisava mais de olheiros em cada esquina. Ou esperar um jogador ficar visivelmente pronto, A globalização e a tecnologia permitiram não só comprar, mas maturar, formar e naturalizar atletas. Tudo em busca de centralizar o futebol — e, no fim, conseguiram.
Era SAF: a chegada dos empresários e a nova forma de enxergar talentos no Brasil
Era nítido: vivíamos uma crise de profissionalismo. Não havia expectativa de tornar o futebol um negócio viável em vários setores, especialmente na formação de talentos. Enquanto a Europa exportava o que tínhamos de melhor, o Brasil precisava reagir. E a SAF veio como um respiro — seja por empresários brasileiros, americanos ou os próprios europeus.
O método não chegou como garantia de sucesso, mas como oportunidade de melhorar nosso negócio. Afinal, ainda somos os melhores nisso… certo?
A globalização nos cutucou. Fez com que refletíssemos sobre como cuidar de nossos clubes e, principalmente, dos nossos talentos — da base à venda.
Botafogo, Textor e seus métodos
Coincidência ou não, o dono da SAF alvinegra foi o primeiro empresário internacional a pisar aqui com total disposição para correr riscos e mudar a estrutura de um clube que, sinceramente, tinha de pior: sua própria estrutura.
Textor não apenas mudou a forma de fazer futebol dentro do Botafogo como abriu horizontes, chamando atenção ao tentar transformar o clube em um modelo autossustentável — mesmo que ainda esteja no caminho.
Ao analisar que as divisões de base do clube eram fracas e ineficientes, resultado de gestões amadoras, viu o contraste com clubes de base forte que competiam, venciam e valorizavam seus ativos. Textor precisava encurtar esse processo. Pressionado para construir um Botafogo protagonista, decidiu montar a melhor equipe de scout da América Latina, feito de um jeito mais profissional possível. “ Vocês levam nossos talentos, nos usamos seus métodos “
Tirou Alessandro Brito (que havia construído um Atlético campeão), buscou os profissionais mais qualificados do mercado e transformou o Botafogo no “GPS” de promessas mais eficaz do Brasil que não se limitava apenas a divisão de base mas sim a jovens profissionais com poder de revenda.
Aliou o scout à comissão técnica europeia (com Luís Castro e companhia), trouxe equipamentos de ponta — softwares, máquinas, análise de desempenho — e apostou na junção entre inteligência, feeling e profissionalismo. Um modelo de capitalização de atletas até então só visto na Europa.
Hoje, esse scout tem nome. É falado, citado, respeitado. Não é mais o “olheiro” da pracinha ou dirigente entrando nas escolinhas de várzea. Ele tem método, padrão e estrutura. E tudo isso só foi possível porque alguém de fora viu aqui um futuro promissor — para o seu clube e, consequentemente, para o seu bolso.
Questionamentos, erros e o peso do processo
Alguém pode perguntar: “Tá, mas e os erros?”
Sim, eles existem. No futebol moderno, onde os números se tornaram armas cruciais na escolha de um jogador, às vezes esquecemos que o fator humano ainda pesa. E aí mora o erro.
Nomes como Segovinha, Diego Hernández, Segovia, Philippe Sampaio, Di Plácido… Todos pareciam apostas seguras, baseadas em dados e análises minuciosas. E, ainda assim, fracassaram. Uns por razões e contextos desfavoráveis, outros por problemas extracampo. Mas todos, de maneira explícita, falharam por escolhas e rendimento próprios.
Em 2025, nosso scout está sob análise. O Botafogo, como em 2022, optou por mais uma reestruturação no elenco. Se desfez de jogadores em queda de rendimento ou fim de contrato para trazer outros com potencial técnico. Isso também é profissionalismo — mas que exige tempo e paciência. São jogadores que podem dar certo… ou não.
A decisão veio num momento ruim. Afinal, acabamos de desfrutar da glória, e agora estamos fazendo testes em pleno ano mais competitivo?
Como torcedor, não estou satisfeito com nada do que foi feito até aqui na temporada. Mas reconheço: a existência de um método, mesmo com falhas, é mais gratificante do que sua ausência.
Gostemos ou não, o futuro é mais promissor — e mais profissional — do que já foi. O futebol do Botafogo não é mais comandado por quem o trata de forma amadora. Questionamentos e erros sempre vão existir, mas hoje o método de contratações desse clube se baseia em números, algoritmos e estratégias.
A nova promessa precisa mais do que driblar três no campo de várzea. Entendemos que o campo mudou. A forma de jogar mudou. E esse esporte evoluiu e virou um negócio caro — mas, ainda assim, sai mais barato do que ser comandado por quem insiste em atrasar o nosso avanço.









