Deu o que tinha de dar. Com uma zaga improvisada, um ataque praticamente inofensivo e um meio de campo atarantado, o Botafogo perdeu ontem fora de casa para o Estudiantes da Argentina por 1 a 0; e viu suas chances de classificação à segunda fase da Libertadores se reduzirem drasticamente. E nem vamos pôr a culpa do desaire na falha individual de John: ela é o retrato de uma equipe desmotivada, desatenta, despreparada, sem rumo.
A derrota parecia inevitável. E certamente não foi a notícia da semana.
Uma outra polêmica agitou a blogosfera alvinegra. Após uma postagem do perfil Fogão do Coração sobre supostas pressões internas pela demissão do técnico Renato Paiva, citando como fonte o Gigante Glorioso, John Textor, acionista maior da SAF botafoguense, veio a público desmentir a notícia.
O debate evoluiu para uma entrevista pessoal do norte-americano ao canal que divulgou inicialmente a informação. O Gigante Glorioso sustentou que existe realmente um movimento que, embora não parta da Diretoria, cresce dentro do clube, com pesadas críticas ao trabalho do português.
A pressão externa, obviamente, já tinha ficado evidente após a derrota para o Atlético Mineiro no fim de semana. A torcida pôs a boca no trombone. Pesquisas informais mostram que o descontentamento com o treinador vem aumentando vertiginosamente nas últimas rodadas.
A resposta de John Textor, no entanto, foi categórica. O Presidente da Eagle Holding não só concorda com a linha de trabalho de Paiva, como chegou mesmo a jogar a responsabilidade do insucesso momentâneo na conta dos jogadores, que, segundo ele, não estariam executando em campo as diretrizes táticas do treinador.
Vamos ao contexto. Renato Paiva é um adepto do jogo posicional. A proposta surgiu no Ajax, na década de 70. Rinus Michels, treinador da seleção holandesa, levou-a para a Copa de 74.
O estilo preciso e dinâmico da Laranja Mecânica encantou o mundo. Um dos expoentes da equipe vice-campeã na Alemanha, Johan Cruyff, meio-campista de raro talento, pôs o esquema em prática como técnico do Barcelona; em pouco tempo, o jogo posicional se tornava a pedra de toque da Seleção Espanhola campeã do mundo de 2010.
Trata-se de uma perspectiva ousada, que combina toques rápidos, variações constantes, ocupação de espaços por zona, distribuição tática espaçada na largura do campo, dinâmica constante de ataque e defesa. Algo que demanda duas condições básicas: tempo de treinamento e jogadores de elevada qualidade técnica.
Cabem aí algumas considerações. Se a ideia era essa, Renato Paiva deveria ter chegado antes. De preferência, em janeiro. Não se pode pretender em sã consciência que uma equipe habituada a uma proposta tática diferente assimile mudanças tão radicais no estilo de jogo a menos de um mês da estreia nos campeonatos decisivos da temporada.
Ademais, se considerarmos a parte técnica, é preciso admitir, sem citar nomes, que, nesse aspecto, o elenco do Botafogo não é assim tão homogêneo.
Textor caiu de amores pela ideia. Fez questão inclusive de deixar bem claro, na entrevista, que Renato Paiva está prestigiado mesmo em caso de novos insucessos. Um deles acaba de tomar forma. E ainda temos o clássico com o Fluminense na próxima rodada do Brasileiro.
A solução? Nosso Presidente garantiu que vai buscar reforços na segunda janela. Jogadores de qualidade, que possam se adaptar ao esquema.
Sei que não sou uma sumidade em planejamento. Mas, com toda a humildade: não seria melhor contratar o treinador antes de reforçar o time, para não ter a surpresa de descobrir tardiamente que o elenco contratado não se adequa à proposta de jogo?
Parece a história do sujeito que compra os móveis antes de construir a casa. Depois que a obra termina, sem a devida atenção às medidas, o proprietário descobre que eles não entram nem pela porta nem pelas janelas; e tem de decidir entre quebrar a casa toda ou comprar mobília nova.
É a velha questão de pôr o carro na frente dos bois. Vida que segue. De qualquer maneira, nessa confusão toda, uma coisa é certa.
O torcedor botafoguense que vá se preparando; porque a temporada, pelo visto, começa agora em junho.
Rodrigo Rosa prestigia há várias temporadas a Nova Escrita http://www.novaescrita.art.br








