Não se pode ter tudo. O Mundial é um sonho que fica para depois.
Cansaço, desfalques, longas viagens. A derrota no Intercontinental mostrou uma equipe exaurida, que não foi nem sombra do que nos acostumamos a ver.
O final do ano pode ter deixado um certo travo amargo, após tantos triunfos. Se olharmos um momento para o caminho que percorremos nos últimos três anos, porém, é impossível não se admirar do quanto avançamos em tão pouco tempo.
O primeiro ano da SAF começou atrasado. O clube havia acabado de retornar à Primeira Divisão. E quase obteve uma classificação para a Libertadores.
O ano seguinte começou cheio de indagações. Contudo, o time engrenou no Brasileirão. Uma arrancada espetacular, um desempenho inigualável. Tudo parecia resolvido. A inacreditável queda de rendimento no segundo turno trouxe espanto e decepção.
A explicação é simples. Nem mesmo a Diretoria esperava uma resposta tão rápida. O Botafogo foi vítima de seu próprio sucesso. A estrutura não estava ainda plenamente consolidada, os recursos permaneciam indisponíveis. 2023 foi o ensaio da Revolução.
Textor aprendeu com os erros cometidos durante o ano. Refinou o scout, mudou a Diretoria, a Comissão Técnica, aumentou os investimentos.
Os resultados não tardaram a vir. Dessa vez, em dobro. Um Brasileirão e uma Libertadores, título inédito na história do clube.
Uma torcida cética, desiludida, crítica ao extremo, alimentada por decepções, por anos de desenganos, times fracos, clube insolvente, rebaixamentos, humilhações, finalmente soltou o grito de campeão.
A ascensão botafoguense parece às vezes inacreditável. Ela nos ensina que o tempo é na verdade uma síntese. As tradições a que nos apegávamos nos momentos difíceis, o passado glorioso que nos servia de argumento contra as zombarias, provou-se mais forte talvez do que nós mesmos suspeitávamos.
A mística da Estrela Solitária conquistou o investidor norte-americano. Deu-lhe um estímulo a mais para que ele concentrasse os seus esforços no clube. O Botafogo, diziam, seria o patinho feio da Eagle Holding. Pois, para a surpresa dos detratores, o time de Mané Garrincha, de Didi, de Nílton Santos se tornou um imponente cisne preto e branco, a estrela maior da companhia.
Foram sem dúvida os grandes feitos do passado, as conquistas memoráveis, os craques inesquecíveis, toda uma dourada legenda, a centelha que animou essa campanha histórica que acabamos de viver.
O Botafogo não se infiltrou sorrateiramente no grupo dos grandes clubes do futebol brasileiro.
Apenas retomou o lugar que sempre lhe pertenceu.
Rodrigo Rosa joga no time da Nova Escrita http://www.novaescrita.art.br









