Em épocas turbulentas, costumo recorrer ao meu consultor pessoal, o Maneco, um botafoguense do tempo em que se amarrava Biriba com linguiça.
Para a minha surpresa, foi ele que me fez ontem uma chamada de vídeo, de seu reduto etílico em uma transversal da Mena Barreto.
Meu amigo estava visivelmente descomposto.
– Digo…Eu preciso de ajuda.
Cheguei a pensar que fosse uma questão de saúde.
– Algum problema, Neco? – eu perguntei.
– Um só não, vários. Você não lê o noticiário?
Respirei aliviado.
– Ah! É o Botafogo outra vez?
Ele quase gritou:
– Claro que é o Botafogo! Esse clube não me dá descanso.
Maneco ajeitou os óculos que escorregava pelo seu nariz abaixo, e mandou a real.
– Digo, eu sou da velha guarda. Até outro dia pensava que ChatGPT era um aplicativo de mensagens.
O que viria daí, eu pensei…
– Torcer, no meu tempo, era uma coisa simples. Agora a gente tem de entender de fundo de investimentos, fusões, aquisições, sentenças judiciais, empréstimo com opção societária…Eu estou ficando zureta.
Dava para perceber, sem o menor esforço.
– Ainda tem uma porção de nomes e siglas. Antes era a Ares e a tal da Ironic. Agora apareceu mais gente. E eu não consigo entender o que a Luma de Oliveira e a Whitney Houston estão fazendo nesse negócio.
Juro que tentei corrigi-lo.
– É GDA Luma e Hutton.
Ele se impacientou.
– Que se dane. Quando eu aprender a falar os nomes direito, já vai ter mudado mesmo.
Eu tinha que admitir que o Neco tinha uma parcela de razão na sua bronca.
– Digo, eu já assisti a um empate sem gols entre Botafogo e Ferroviária em um Maracanã vazio, debaixo de chuva, na quarta-feira às nove da noite.
– Eu sei, eu sei.
– Tendo de acordar cedo no dia seguinte.
A fidelidade do Maneco estava acima de qualquer suspeita.
– Já encarei jejum de títulos, gozação de colegas de trabalho na segunda, sede vendida, falta de material esportivo…Já acreditei em um monte de Salvadores da Pátria que deixaram o clube ainda pior.
Era um rápido resumo da nossa História nas últimas décadas.
– Suportei tudo com bravura. Pelo menos, as coisas eram mais claras. Hoje, a gente não sabe em quem vai acreditar.
Mais uma verdade absoluta.
– Sabe qual é o problema? Quando eu começo a pensar que entendi, o negócio já é outro, e eu fico sempre para trás.
Eu não sabia o que dizer. Meu amigo pintava o retrato de uma era.
– Não manjo nada de economia. Tudo o que eu sei é ir ao estádio, agitar bandeira, cantar musiquinha e xingar o juiz.
Acabei por fazer a pergunta final:
– Neco, eu entendo o desabafo. A situação está mesmo esquisita. Mas foi só por isso que você me ligou?
Ele deu um suspiro.
– Não, Digo. Você que é um cara bem-informado…Poderia me dar uma indicação.
Indaguei que indicação ele queria. E o Neco, com a voz desanimada, saiu-se com esta:
– Você conhece algum curso de formação de torcedor?
Rodrigo Rosa cursa a Nova Escrita http://www.novaescrita.art.br










