Em 2023, fomos do Céu ao Inferno em pouco tempo. Um ano que parecia mágico transformou-se em um grande pesadelo. O padrão se repete agora, desdobrado em duas temporadas.
A partida de ontem contra o Mirassol, no estádio Nílton Santos, materializou de forma emblemática o fenômeno. O time dominou inteiramente o primeiro tempo, impôs o seu jogo, abriu uma vantagem de três gols. Com a saída de Danilo, por desconforto muscular, se desarvorou completamente e cedeu o empate aos 15 minutos do segundo tempo.
Alguém teve aí um déjà vu? Pois é. Criou-se uma tradição negativa. A questão é que o processo já estava em curso há muito tempo. O jogo de ontem só tornou a coisa mais evidente.
O Botafogo se assusta quando está à frente do marcador. Parte do elenco parece fora de forma. Há jogadores que desaparecem no segundo tempo. O técnico demora a mexer. Ontem fez duas substituições aos 92 minutos de jogo. Parece piada, sim; mas a piada, infelizmente, no caso, somos nós.
O elenco tem alguma qualidade. O Mirassol é um time arrumado. Não havia sofrido ainda um atropelo semelhante ao que viu na etapa inicial. Falta, porém, um treinador de peso. Alguém que domine o vestiário. Que tenha boa leitura de jogo. Confiante, seguro para fazer as mudanças na hora certa.
Não é difícil explicar a derrocada. O Botafogo é um exemplo negativo de gestão. Foi assim em 2023, quando os problemas começaram a surgir. A desorganização não aparece por acaso. John Textor tem uma trajetória negocial errática e aplica métodos de gestão no mínimo confusos. Já esteve à frente do Lyon e foi defenestrado. Foi acionista do Palace e vendeu suas participações a toque de caixa. Faz empréstimos que não consegue pagar. Monta e desmonta elencos num piscar de olhos. Vende um jogador e em seguida o recebe de volta. Estabelece parcerias com dirigentes suspeitos. Leva dois meses para contratar um técnico e quatro para anunciar a sua demissão.
De todas as besteiras que o norte-americano já fez, e não foram poucas, a contratação de um treinador inexperiente, no meio da temporada, merece um lugar de destaque. Ancelotti não consegue emplacar. Como demitir agora o filho do técnico da Seleção? Uma verdadeira saia justa, justíssima, poer sinal.
O Botafogo é hoje o retrato dessas práticas duvidosas. Um time cheio de remendos, burocrático, apático, sorumbático, comandado, entre muitas aspas, por um aprendiz sem sangue nas veias.
Financiamos um projeto falido. Servimos de alavanca para aventuras dispendiosas. Sim, ganhamos dois títulos importantes. Fica evidente, porém, no conjunto da obra, que nossos triunfos têm muito mais a ver com a tradição e a mística do clube do que com um planejamento sério e sustentável.
A era dos Salvadores da Pátria parecia encerrada. Muitos passaram pelo Botafogo, dando um ou dois títulos ao clube, para depois largá-lo na indigência.
O projeto das SAFs trouxe a esperança de que a gestão do futebol passaria a ser transparente e profissional. Não é o que estamos vendo.
Quem quiser ficar à frente do clube tem de mostrar respeito pela nossa História.
O sobe-e-desce do time só vai parar quando a torcida e o Associativo souberem se impor. O Alvinegro é um investimento atraente. Não precisa de aventureiros.
Isto posto, muito cuidado. Agir em tempo hábil é mais do que recomendável.
Quando a gangorra oscila demais, há sempre o risco da queda.
Rodrigo Rosa está na gangorra da Nova Escrita http://www.novaescrita,art,br









