A frase “Esse é o pior Botafogo dos últimos 10 anos”, viralizada no ano passado (2024), hoje vai se tornando um “filho feio sem pai”. Bom, confesso que não sei o legítimo autor da frase, mas sei que a intenção de elogiar um projeto no seu melhor momento se tornou uma pressão enorme para o que havia de chegar em 2025. Mas para entender melhor o hoje, precisamos virar a página para trás e fazer um leve exercício de contextos e acontecimentos.
Hora de sacudir a poeira e lidar com os traumas.
Em 2024 o Botafogo não era o time a ser batido; muito pelo contrário, era o time que precisava se provar por tudo que aconteceu em 2023. E John, que enxergava seu projeto se desvalorizando – cuja marca já estava arranhada por diversos anos de más administrações –, viu em 2024, querendo ou não, seu maior desafio: reverter o irreversível causado por um 2023 trágico, e o Botafogo precisava de uma resposta à altura do tamanho daquela frustração; a mudança precisava ter um choque cultural e uma liderança que reconhecesse o óbvio (“Tiago Nunes não funciona”). Sabendo que não podia errar na próxima escolha, John precisava de tempo – e usou sem pressa. Fez sua escolha de forma minuciosa, calculista e, claro, corajosa: trouxe um treinador português, babando por reconhecimento de um trabalho primoroso e pouco visto fora de Portugal. Uma escolha a dedo e olhos do dono da SAF.
Artur Jorge e companhia: muito além de um simples treinador.
Artur chega com sua comissão técnica, vindo de um excelente Braga de Portugal, para assumir o maior desafio da sua carreira: construir um Botafogo competitivo, propositivo e corajoso em campo. E, fora dele, um trabalho de recuperação emocional fora do normal de um elenco destruído psicologicamente. Mas só a mudança de liderança não era suficiente; faltava algo nesse quebra-cabeça, e o cheiro de 2023 ainda estava na camisa e vivo na estrutura do clube. John sabia que precisava subir o tom – que, para grandes conquistas, eram necessários grandes jogadores. O foco era trazer jovens realidades que precisavam escrever sua história na história do clube e atrelar isso a jogadores que precisavam reescrever suas próprias trajetórias dentro do Botafogo.
O começo foi difícil; o Botafogo teve resultados ruins em boas atuações. Tivemos uma fase inicial de libertadores bem complicada, devido aos acontecimentos de um calendário único – mas nem um pouco peculiar para o futebol brasileiro. Artur precisou, literalmente, consertar a roda com o carro em movimento. À medida que jogávamos, o time foi encorpando; tirava pontos dos concorrentes no Brasileirão e passava a ganhar seus jogos na Libertadores. O entrosamento que demorou nos primeiros jogos começava a soar como música; os reforços de peso foram chegando, o elenco foi ganhando forma e no meio de tantas incertezas, o Botafogo seguia, jogava e passava por quem precisava – de um jeito único, que atrelava a sorte de um azarão e a qualidade de um time campeão. Tava estampado: O dedo de Artur Jorge era diferente.
E agora? A caminho da Glória eterna e da tão sonhada Redenção.
Ninguém merecia mais do que a gente; ninguém apostou tanto, sentiu tanto e esperou tanto. O trabalho estava finalmente sendo feito; a aura de campeão aparecia e era reconhecida até por aqueles que fizeram chacota. A torcida, mesmo em meio à desconfiança pelo trauma do ano passado, se viu junto do próprio Botafogo, precisando forçadamente se exorcizar. Porque pra ser campeão não dava pra olhar pra trás e a palavra “coragem” se tornou o mantra necessário; a frase “tudo acontece com o Botafogo” precisava ter um final feliz.
Nada vai tirar da minha cabeça que aquela bola na trave do Gabriel Menino foi “Papai do Céu” assoprando para nos deixar vivos a ponto de ver e viver tudo que estava por acontecer. Eu não vou detalhar a final da Libertadores – juro que tento, fico em choque e me arrepio toda vez que lembro –, mas não consigo colocar em palavras aquele dia. Assim como choro todas as vez que escuto Belchior, que se tornou a trilha sonora do nosso Brasileirão .
O trabalho foi feito; o ano foi mágico, foi além da expectativa. Criamos ídolos, fizemos história e marcamos uma geração.
O elenco que iniciou a temporada destruído emocionalmente e sem comando dentro de campo terminou seu 2024 sendo o time a ser batido – e com grandes expectativas para um 2025 ainda mais vitorioso.
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Uma resposta
A comparação quando feita de maneira honesta, é sempre salutar. É mais comum entre os torcedores comparar apenas os resultados obtidos. Penso que a avaliação deve ser mais ampla de maneira a abranger, sobretudo, os processos que culminaram no sucesso e também no insucesso. Melhorar o que deu errado te aproxima do acerto, e aprimorar, dentro do possível, aquilo que deu certo, não é garantia de todos os títulos, mas sim a certeza de que todas as conquistas são possíveis.
2025 tá aí, os principais campeonatos já começaram e algumas escolhas parecem não terem sido as melhores para o time. Nem sempre vai dar certo trocar o pneu com o carro em movimento, como em 2024.
Saber trabalhar o clube já mostrou que sabe, em tempos como os atuais onde há pelo menos outros 3 clubes que vão brigar nas cabeças, se manter claudicante por muito tempo pode comprometer o que se espera do atual campeão Brasileiro e da Libertadores.