A partir de hoje, uma vez por mês, o Insider Botafogo vai trazer o que acontece na área de hospitalidade em estádios pelo mundo e como clubes faturam milhões por temporada, contribuindo com uma grande fatia da receita. Após trabalhar por mais de 7 anos em estádios e arenas, vou trazer fotos, dados estatísticos, os restaurantes, camarotes, lounges, área VIP e características de um mercado que só cresce e se reinventa ao redor do mundo.
Mas você sabe o que é hospitalidade e o que ela representa? No conceito de serviços, hospitalidade é a abordagem focada em criar uma experiência acolhedora, personalizada e satisfatória para os clientes ou usuários. Ela vai da simples entrega do serviço e está relacionada à forma como os clientes são tratados, considerando aspectos como empatia, cuidado, atenção aos detalhes e a criação de um ambiente positivo. A hospitalidade é essencial para conquistar a lealdade dos clientes, criar diferenciação no mercado e transformar simples transações em experiências memoráveis.
No esporte brasileiro em geral, a hospitalidade ainda ‘engatinha’ em estádios e arenas, e organizações esportivas perdem a chance de faturar. De acordo com levantamento da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), existem por volta de 850 clubes profissionais espalhados pelo país e uma parcela ínfima desse total, hoje, oferece algum tipo de serviço em hospitalidade na área de comidas e bebidas. O tradicional amendoim de estádio, a pipoca, o cachorro-quente sem molho e o hambúrguer requentado estão inseridos na ‘gastronomia’ oferecida em estádios, mas não vamos usar esses exemplos como fator determinante no estudo. Nosso país, que possui uma culinária diversificada repleta de temperos e sabores com mix de culturas, e influência de muitos países, certamente tem capacidade necessária para criar um ambiente focado em qualidade e serviços para os clientes e fãs oferecendo o melhor da gastronomia nesta área.
Nossa cultura ainda é de chegar no estádio para o espetáculo 10 minutos antes do pontapé inicial do juiz. Muitos torcedores têm o hábito de comer e beber em bares e estabelecimentos ao redor do estádio pela falta de opções e preço caro dentro do estádio, onde vendedores ambulantes roubam a cena segurando uma importante fatia de mercado. Certamente esses torcedores, se tivessem melhores opções e alternativas gastronômicas, gastariam seu dinheiro com alimentação e serviços dentro do estádio.
Na Inglaterra, times de primeira à quarta divisão oferecem hospitalidade em seus estádios que vão de eventos corporativos em dias que o estádio não opera seus jogos, conferências para empresas, festas, confraternizações e até eventos privados. Em alguns casos, o próprio clube abre restaurante ou café externamente para fãs e clientes poderem conhecer e usufruir do espaço, gerando mais vendas. A ideia é gerar receita e ser ativo durante todo o ano com esportes e entretenimento.
É bom ressaltar que clubes usam uma média de 8% de seus estádios nos seus jogos em casa. O que fazer com o estádio no restante do ano? A hospitalidade e eventos é uma saída para geração de caixa e aumento de receita em uma área tão procurada.
Tottenham Hotspur e o Mundo de Possibilidades Gastronômicas
Usando o time inglês Tottenham Hotspur como exemplo, com seu novo e mais moderno estádio na Europa que custou £1,2 bilhão de libras ou (R$ 7.32 bilhões) e foi projetado para ser uma experiência memorável para o torcedor e/ou visitante.
O novo e moderno estádio tem capacidade para 62.850 pessoas e sua hospitalidade é terceirizada pela empresa Levy UK, especializada na área. O clube vende uma incrível quantidade de 65.000 pints (568ml) de cerveja por jogo, aonde a maioria dessa quantidade é vendida no intervalo de 15min da partida. O estádio enche os copos de cerveja com um sistema chamado ‘bottom up’ aonde o líquido é inserido por uma máquina de baixo para cima e dura apenas 5s para completar o copo.
O Tottenham possui o mais longo bar da Europa com 65 metros e servem 10.000 pints de cerveja por minuto. Além disso, é o único estádio com 9 andares com setores de hospitalidade no mundo e o primeiro estádio sem uso de dinheiro físico. O estádio fatura £ 800.000 libras (R$ 4.497.800,00 ) em comida e bebida por jogo, o que gera £ 17,6 milhões anuais (R$ 128.862.272,00) baseado em 22 jogos em casa. Dentro do estádio é possível achar uma padaria própria, 65 barracas espalhadas de comida e bebida ao redor dos níveis e a primeira micro cervejaria do mundo em um estádio com produção própria chamada Beavertown.
O clube, que tem seu material esportivo patrocinado pela Nike, possui a maior loja da marca na Europa, aberto diariamente ao público. Além de toda essa super infraestrutura, no setor Leste e Oeste apresentam instalações apenas para pessoas que são membros premium, que incluem 2 lounges Sky com vista acima da cidade de Londres e do campo e um restaurante com símbolo estrela Michelin. No setor Sul, o clube possui 2 bares, Bar One e Goal Line, já no Leste outros 2 bares, White Hart e o The Shelf e para finalizar no setor Oeste o bar, The Dispensary.
Este estádio foi totalmente projetado para ser ativo e funcional durante o ano todo com salas de conferências e instalações para feiras, eventos e banquetes. Uma curiosidade importante é o Café M, que é aberto ao público apenas nos dias em que não existe jogo e durante os jogos vira uma sala de media para jornalistas e repórteres.
Botafogo e sua Hospitalidade – Camarote Firezone
Antes da Era Textor, O Botafogo, como a maioria dos clubes no Brasil, faziam o básico e faziam mal feito na área de comidas e bebidas. Preços abusivos de cerveja e refrigerante normalmente servidos quentes, fatias de pizza, hambúrgueres, cachorro-quente e salgados sendo servidos frio e com preços quatro, cinco vezes mais que o normal praticado. Durante o jogo, subitamente a falta de opções em comida e bebida, que já é pouca, simplesmente desaparece, criando um vazio na área de vendas para os consumidores. Não podemos esquecer das filas quilométricas e demoradas para conseguir comprar algo, e quando você tem a chance de pedir e comorar algo, já perdeu alguns bons minutos das partidas. Um sistema arcaico e totalmente não focado para agradar ao torcedor e longe de criar uma experiência prazerosa. Existiam alguns camarotes alugados para empresas e outros privados, que serviam salgadinhos, petiscos e outras comidas rápidas de servir, mas a experiência nunca foi memorável e a falta de opções sempre se mostrou ativa.
Com a chegada de John Textor e toda a reformulação que o clube vem sofrendo, o clube decidiu focar também no aluguel de camarotes e na criação de um camarote exclusivo chamado Firezone, que tem capacidade para mil pessoas. O estádio Nilton Santos recebeu um investimento para o Firezone de R$ 2 milhões de Reais, que ainda conta com assentos privilegiados com vista da altura do meio do campo e a chance de conhecer ídolos que posam para fotos e conversam com fãs. O camarote do Botafogo oferece serviço de bufê liberado e a vontade, open food e serviço de bebida liberado, open bar. Além disso, existe um serviço de barbearia para quem quer dar um retoque no visual, um estúdio de tatuagem, DJs e palco com shows de bandas ao vivo. Similar ao que existe nos estádios europeus, o Botafogo abre sua experiência para o público, ofertando um total de 7 horas de diversão e entretenimento. Preços no site oficial variam entre R$ 600 e R$ 700 e crianças de até 12 anos pagam R$ 200.
Revela-se bastante desafiador contrastar as estruturas de hospitalidade de ambos times, mas é possível ver que comparado ao praticado no passado, o clube avança com assertividade e melhorias jogo após jogo. Quem sabe dentro de poucos anos, não possuiremos uma estrutura parecida igual visto no estádio do Tottenham, que proporciona uma estrutura de entretenimento notável para jogadores e fãs. É bom ressaltar que a área de hospitalidade gera entre 10% e 17% da receita dos clubes de futebol, ou seja, um valor considerável agregado nos cofres das instituições.
















