Mais uma semana de crise no Botafogo. Batalhas judiciais em sequência mudaram o comando do clube, tornando os resultados em campo um assunto de menor importância.
O Botafogo está em primeiro no grupo da Sul-Americana, depois da recente vitória por 3 a 0 sobre o Independiente Petrolero. Ao mesmo tempo, a nova direção da SAF revela que não há dinheiro para pagar os salários de maio. Como essa situação é possível?
Ah! Mas e o Corínthians? É o famoso clichê de parte da torcida, que prefere minimizar o problema, em vez de buscar entendimento. A diferença é clara: o Botafogo foi incluído em uma holding e faz parte de uma rede multiclubes insolvente e sob administração judicial. Além disso, foi dado em garantia na operação de compra de um clube estrangeiro. Não há paralelo possível com a situação de um clube social brasileiro, no momento.
A pergunta principal deveria ser: como essa holding se tornou insolvente, arrastando o Botafogo para o buraco? E a resposta também é clara: John Textor implementou um sistema de captação de dinheiro a juros cada vez mais altos, em que os valores não pagos se incorporavam progressivamente à dívida. Essa estratégia suicida terminou por asfixiar a própria rede.
É fácil dizer que o Botafogo chegou aonde está por conta de transferências de caixa para o Lyon. Na realidade, o clube francês teve um prejuízo de 200 milhões de euros no último ano da gestão Textor, e foi rebaixado à segunda divisão por causa de seu desequilíbrio financeiro. Os credores tiveram de injetar mais de 100 milhões de euros para salvar o clube. O cenário, portanto, é bem mais complexo.
O cerne do problema está na proposta de gestão. Basear o funcionamento de uma empresa em um modelo de endividamento constante não é nem saudável nem muito menos sustentável. As promessas de uma IPO salvadora estavam fadadas ao malogro desde o princípio, já que Textor não tinha o controle societário do Crystal Palace. O desastre viria de qualquer maneira.
Outra concepção absolutamente parcial do assunto é crer que o Botafogo está sendo vítima de uma asfixia financeira. A Eagle Bidco é hoje administrada judicialmente pela Cork Gully. O administrador não faz aportes porque não há dinheiro. John Textor foi afastado da empresa pela Justiça inglesa justamente porque levou a holding a uma situação falimentar.
O TJ acaba de cassar os direitos políticos da Eagle no Botafogo, tendo em vista o processo de recuperação judicial. Os direitos econômicos dos credores, contudo, permanecem válidos. E a história ainda vai dar muito pano para manga.
Até segunda ordem, a bola está com o Social. Uma assembleia nos próximos dias pode definir um novo investidor. É um momento crucial para a sobrevivência do clube.
Há investidores com experiência desportiva interessados na SAF. Fala-se, porém, que o Social irá apresentar a GDA como alternativa. Tratar-se de um fundo que opera com empresas insolventes, mas não administra clubes de futebol. É evidente que a GDA não é uma solução a longo prazo. Os termos desse investimento também são nebulosos. Às vezes, a pretensa solução causa ainda mais danos.
O incêndio já foi deflagrado. Há que se tomar muito cuidado, quando os incendiários vestem a roupa de bombeiro.
O clube está numa encruzilhada. O Associativo tem uma oportunidade histórica.
O Botafogo já foi entregue em operações duvidosas. Que não seja sacrificado outra vez.
Rodrigo Rosa põe fogo na Literatura com a Nova Escrita, http://www.novaescrita.art.br










